sábado, 8 de junho de 2013

Macau - casa?

Este vai em português! / this one will be in Portuguese... sorry...

Depois de cinco noites em Hong Kong rumei de barco a Macau.

Primeiro choque (apesar de já estar à espera): na alfândega todas as indicações estavam em português, depois cantonês e por vezes em inglês em terceiro lugar. Apanho o autocarro para o centro e a voz que indica o nome da próxima paragem é uma voz feminina portuguesa (com sotaque lisboeta), seguida de uma voz em cantonês. As placas com os nomes das ruas são em português, as matrículas dos carros são como as antigas matrículas em Portugal (vem-me à memoria o QA-47-47, no qual fiz tantas viagens quando era puto), os policias vestem-se como na PSP (e chama-se mesmo PSP), as lojas são 'Pastelaria', 'Restaurante', 'Retrosaria', etc. O autocarro pára no Largo do Senado, onde saio e piso a calçada portuguesa. Os edifícios têm uma certa semelhança com os da baixa pombalina, ou pelo menos é o que me vem à memoria o olhar para eles.


Largo do Senado

Outro largo no centro

Sinto-me mais confortável que nunca na minha viagem, mas ao mesmo tempo confuso. Gosto da sensação... põe-me um sorriso nos lábios o tempo todo. Um sorriso solitário, partilhado apenas comigo, com o João, ou seja, o sorriso mais sincero possível.

Mas quão português é tudo aquilo? Nos primeiros momentos pareceu-me cem por cento português, mas já sabia que tinha que ter um pé atrás em relação a isso. Macau é mais China que Portugal! No primeiro dia não ouvi um único chinês falar português. Os mercados de rua são chineses, a vida na rua é essencialmente chinesa.

Portugueses? Não me parece...

Durante o dia o único contacto com algo ainda vivo e genuinamente português foi o jantar no 'Boa Mesa', onde comi bolinhos (ou pastéis, se preferirem) de bacalhau e um delicioso arroz de tamboril, regados com uma Super Bock.

Arroz de tamboril e Super Bock

Tenho a sensação que a sinalização em português e tantos outros elementos portugueses são como as ruínas da igreja de São Paulo: os restos visíveis de algo que já existiu naquele sitio (metafora da autoria de outrem). Como que um dinossauro (ou dragão) morto ha já tempos idos, dos quais so restam os ossos. Talvez Macau não prescinda destes portuguesismos (a língua nos sinais de rua e montras de lojas, por exemplo) como uma forma de identidade, como um símbolo da diferença entre Macau e o monstro que o rodeia, e que com o tempo tenderá naturalmente a digerir e assimilá-lo (ou '-la'? Não sei o género de Macau) no seu ventre. Mas talvez Macau tenha sido sempre assim... Será que havia mais chineses a falar português antigamente, por exemplo? Que sei eu, o mero viajante...

Ruínas de São Paulo

Fico hospedado na 'San Va Hospedaria', onde o Won Mar Wai filmou o '2046', foi o segundo encontro com o realizador de Hong Kong em duas noites consecutivas (ver o meu post sobre Hong Kong).A hospedaria é velha, pobre e talvez quase que mal-cheirosa, mas é lindíssima! Paredes de madeira pintadas de verde entre os quartos que não chegam sequer ao tecto (pontapeadas no "2046" pelo Sr. Chow nas suas aventuras sexuais), que dão uma ténue sensação de privacidade. Durante a noite, tal como no filme, ouço o que parecem ser homens chineses vindos dos casinos com prostitutas pela noite dentro.

Rua da Felicidade, onde fica a hospedaria

A secar uma t-shirt dentro do meu quarto

Depois do jantar no Boa Mesa encontro me com locais do Couchsurf (que usei pela primeira vez na minha viagem). Todos estrangeiros a viver em Macau... Filipinos e ingleses. O encontro foi breve, com histórias das vidas destas pessoas.

A caminho da hospedaria decido procurar uma loja que venda água. Nestas deambulações nocturnas encontro um bar cheio de gente cá fora, no calor da noite... Todos ocidentais. À medida que me aproximo ouço o português falado... Diferentes sotaques, algarvio, lisboeta, coimbrão... Decido juntar-me a um dos grupos e às Super Bocks bebidas às dezenas. Tudo muda a partir daqui. Longas horas de conversas até ao raiar do dia com portugueses acabados de chegar, outros que já lá vivem há uns anos e outros que sempre lá viveram. O dragão afinal não está morto! Há toda uma vida portuguesa em Macau! Uma vida portuguesa, mas com um espírito muito próprio. Uma vida apaixonada pelo exótico, excitada pelo calor tropical e pelo 'nao-sei-bem-o-quê que esta terra tem no ar'.  É uma comunidade em que quase toda a gente conhece toda a gente e como consequência (bem à portuguesa) há muita intrigaa, muita má (e boa) língua. Há os cafés onde toda a gente se encontra (o Caravela, por exemplo) e, tal como em Portugal, conversa-se mais à noite do que noutros países ocidentais. É uma terra de personalidades fortes, de paixões e amores perdidos e re-encontrados, de gente bonita e interessante. Mas, como noutros sítios asiáticos onde vivem ocidentais há a clássica disparidade, ou desencontro, entre o homem ocidental e a mulher ocidental (um dos temas mais interessantes para mim sobre ocidentais na Ásia, que prometo elaborar num post futuro). Há o fenómeno da atracção pelo homem ou mulher acabado/a de chegar, virgem, ainda não assimilado/a pelos encantos amorosos/eróticos asiáticos. E, claro está, há a melancolia por outros tempos, nos quais as coisas eram diferentes.

E depois há a (ou 'o') Macau moderno, mais recente e internacional dos casinos. Não dá para explicar a dimensão destas máquinas de felicidade artificial. Tudo é gigantesco: o tamanho dos casinos, a espectacularidade da decoração dos edifícios e dos espectáculos (muitos deles grátis), as obras de ampliação da área de Macau através de terra artificialmente colocada onde havia mar, onde novos hotéis e casinos aparecem e o desperdício (de luz, de energia, de trabalho)... Tudo luminoso, com a intenção de atrair mais e mais moscas com muito ou pouco dinheiro... É sempre possível aceder a todos os casinos, mesmo com chinelos e calções... A ideia é mesmo essa: ser fácil entrar na armadilha onde brilha a luz que atrai os insectos. Pessialmente, não tenho atracção nenhuma pelo jogo, e andei pelos casinos apenas a ver as vistas e a sorte e azar de muitos, nas catedrais da felicidade artificial. Macau move mais dinheiro em casinos que Las Vegas. Mundo estranho este....

Canhão da Fortaleza do Monte apontado (por mim, através da perspectiva da foto) ao Grande Casino de Lisboa 

Torre de Macau vista do 24o andar

Os casinos na ilha da Taipa vistos da Península de Macau

Tal como Hong Kong, Macau é uma península e uma ilha (que costumava ser duas: Taipa e Coloane, hoje em dia virtualmente ligadas uma à outra após obras que as uniram). A Taipa tem a maior parte dos grandes casinos, residências e o aeroporto, Coloane tem praias.

Em apenas dois dias apaixonai-me por Macau, se bem que seja talvez apenas uma daquelas paixões de Verão... quem sabe talvez seja um amor para a vida... No final custou-me deixar. Tive que recorrer à ideia de que o viajante tem que continuar viagem: 'Proibido Permanecer', tal como aparece escrito mesmo à entrada de Macau, e na qual um outro amigo viajante viu um poema quando por lá passou há uns anos atrás.


Apercebi-me em Macau que, após quase 7 anos a viver fora de Portugal, o português já me é exótico também. Vi mais facilmente o que é ser Portugal, o que é ser português quando vi Portugal a ser, a acontecer num sitio diferente, sem todas as distracções que o ser português tem em Portugal. Alguém me disse que Macau é como uma placa de petri em que todo o Mundo acontece a uma pequena escala mais facilmente analisável. Não estou convencido que seja válido para todo o Mundo, mas que é verdade para Portugal, lá isso é!

O Dragão está ainda vivo, mas tem saudades de outros tempos...

1 comentário:

  1. Cuendo tengo ganas de viajar un rato, leo tu blog, y lejos es mejor post de todos, tal vez porque esta en portugues, no lo se, que el viaje siga asi tan cargado de magia y descubrimiento, beso grande!
    Sol.

    PD. no se porque publica con un blog que hice o tuve intencion de hacer hace unos años de pajaros, por eso el nombre, jajaj la tecnologia me supera, pero soy yo, la sol de siempre, ja!
    Beijo!

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